Música

A MÚSICA NA ESCOLA WALDORF

Luciano Vazzoler

 

“Fechando-se os olhos, o ouvido se abre e se aguça. Do sopro mais tênue ao ruído mais violento, do som mais simples à harmonia mais elevada, do grito mais compungido e impetuoso à palavra mais suave da razão, o que fala é sempre e somente a natureza…”

Goethe

 

     Refletir a música no ambiente da escola Waldorf é antes de mais nada refletir sobre o desenvolvimento do ser humano – de uma forma integral – em suas diversas fases de crescimento, centrando o olhar para a fase da infância e da juventude. Ciclos, fases e períodos são momentos específicos de aprendizado, formas de amadurecimento com regiões de transições que preparam as futuras e novas transformações. Sabemos que Rudolf Steiner coloca a vida humana como um desenvolvimento a partir de ciclos de aproximadamente sete anos. Cada um desses ciclos seguem leis naturais de crescimento que merecem um olhar atento e sensível principalmente daqueles que estão à frente em uma sala de aula.

     Consciente deste processo natural de amadurecimento, o profissional que se utilizará da música na escola Waldorf deve refletir de que forma empregará os recursos que a música traz em sua essência para colaborar com o desenvolvimento natural  da criança e do jovem. Desta forma, é importante ter a consciência que cada aspecto do que chamamos música (melodia, ritmo, harmonia, timbre) pode contribuir de maneira específica para este processo.

     Farei um breve relato de como a música pode ser utilizada de acordo com as fases de desenvolvimento da criança e do jovem.

     No primeiro setênio a criança está completamente aberta ao ambiente que a circunda. As influências externas promovem efeitos profundos em sua organização física e psíquica. O professor é para a criança nesta fase como um exemplo e a educação se dá basicamente por imitação.  “Sabendo que a imitação e o exemplo são os motivos básicos de todo comportamento infantil, o educador tem em suas mãos a chave de ouro para realizar sua tarefa” (LANZ, p. 42).

     No campo da música, a voz humana será o instrumento fundamental para a educação musical da criança. Fazer do canto algo natural e espontâneo, cantar notas agudas, estimular uma emissão vocal precisa e sensível são elementos fundamentais para uma prática musical adequada a este estágio.  Neste período, além das cirandas, das músicas folclóricas infantis, é recomendado canções e melodias estruturadas sobre a escala pentatônica. Pela sua própria natureza, ou seja, por ser organizada pelo intervalo de quinta, a escala pentatônica induz a um estado psicológico aconchegante, seguro e sereno.

     A partir do segundo setênio, temos um novo momento no desenvolvimento infantil. É um momento de transição, onde a criança começa a sair de um ambiente aconchegante e protegido e inicia um novo relacionar com o mundo externo.  É o início propriamente dito da vida escolar e da vida em comunidade. Neste sentido, o segundo setênio é uma transição da imitação para a autonomia. Agora o professor deve ser visto não essencialmente como um exemplo, mas como um guia.

     A música tem um papel fundamental nesta fase porque ela deve ser uma das pontes que conduzirão a criança para a vivência social. Em cada ano do currículo escola, o ensino da música abordará conteúdos específicos. A partir do primeiro e segundo anos ainda serão utilizadas músicas pentatônicas e folclóricas, adicionadas a vivências musicais mais ricas. O aprendizado da flauta despertará a motricidade e lateralidade fina dos dedos. A audição será despertada por meio de exercícios rítmicos e melódicos. Contos e histórias serão sonorizados. No terceiro ano, será importante valorizar a vivência da escala musical até a introdução dos nomes dos tons. Importante destacar que toda a prática musical tem que “aprender a viver no corpo” primeiramente. No terceiro ano também se estimulará o canto em pequenos cânones e o aprendizado de um instrumento de arco.

     Nos próximos anos haverá um aprofundamento dos conteúdos musicais: introdução aos símbolos musicais, leituras de notas, cânones mais exigentes. Importante ressaltar no quinto ano o uso diversificado de instrumentos (flauta e violino por exemplo) e o canto a duas vozes mais elaborado. No sexto ano, destacaríamos a introdução aos intervalos musicais e uso da escala cromática. Por fim, no sétimo e oitavos anos, a vivência musical deverá se aprofundar na pratica em conjunto, experiências musicais com teatro, pequenos grupos instrumentais e vocais.

     O terceiro e último ciclo se insere no terceiro setênio. Este é o período de maior autonomia do eu, que culminou com o desenvolvimento progressivo nos períodos anteriores. É o momento em que o pensar ganha sua máxima expressão. O despertar do julgamento conduz a crítica, o adolescente vê o mundo de uma nova maneira. O professor agora é visto como inspirador e “espelho”.

     A música no Ensino Médio terá como pilares a criação, a interpretação e a cultura musical. Justamente no momento do amadurecimento do eu, o professor estimulará a composição musical, ou seja, a expansão da criatividade musical do aluno. Da mesma maneira, este é o momento de entrar em contato com expressões musicais modernas e contemporâneas, suscitando no aluno o desejo de compreender e dialogar com as tendências musicais mais próximas de seu tempo. No campo da interpretação, o coral e a orquestra serão oportunidades da vivência musical em grandes conjuntos, propiciando a integração social e o respeito às diferenças.

 

Referências Bibliográficas

LANZ, Rudolf. A Pedagogia Waldorf. São Paulo: editora Antroposófica, 1979.

PETRAGLIA, Marcelo. A Música e sua relação com o ser humano. São Paulo: editora Ouvir Ativo, 2010.

PETRAGLIA, Marcelo. A Educação musical da criança e do jovem. Curso Antropomúsica. São Paulo, 2016.

STEINER, Rudolf. O método Cognitivo de Goethe. São Paulo, editora Antroposófica, 2004.

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